Eusebiozinho

Écrit par Angelina Caussé. Publié dans Séquences

Extrait du roman d'Eça de Queirós - Os Maias

L'instruction à tout prix. Le pouvoir par le savoir : issue vers une ascension sociale ? Lieux et formes du pouvoir.

  • Eusebiozinho, uma maravilha muito falada naqueles sítios

    Quase desde o berço este notável menino revelara um edificante amor por alfarrábios e por todas as coisas do saber. Ainda gatinhava e já a sua alegria era estar a um canto, sobre uma esteira, embrulhado num cobertor, folheando in-fólios com o craniozinho calvo de sábio curvado sobre as letras garrafais da boa doutrina; e depois de crescidinho tinha tal propósito que permanecia horas imóvel numa cadeira, de perninhas bambas, esfuracando o nariz: nunca apetecera um tambor ou uma arma: mas cosiam-lhe cadernos de papel, onde o precoce letrado, entre o pasmo da mamã e da titi, passava dias a traçar algarismos, com a linguazinha de fora.
    Assim na família tinha a sua carreira destinada: era rico, havia de ser primeiro bacharel, e depois desembargador. Quando vinha a Santa Olávia, a tia Anica instalava-o logo à mesa, ao pé do candeeiro, a admirar as pinturas de um enorme e rico volume, Os Costumes de Todos os Povos do Universo. Já lá estava nessa noite, vestido como sempre de escocês, com o plaid de flamejante xadrez vermelho e negro posto a tiracolo e preso ao ombro por uma dragona; para que conservasse o ar nobre de um Stuart, de um valoroso cavaleiro de Walter Scott, nunca lhe tiravam o bonnet onde se arqueava com heroísmo uma rutilante pena de galo; e nada havia mais melancólico que a sua facezinha trombuda, a que o excesso de lombrigas dava uma moleza e uma amarelidão de manteiga, os seus olhinhos vagos e azulados, sem pestanas como se a ciência lhas tivesse já consumido, pasmando com sisudez para as camponesas da Sicília, e para os guerreiros ferozes do Montenegro apoiados a escopetas, em píncaros de serranias.
      Clique para escutar o texto realçado ! Quase desde o berço este notável menino revelara um edificante amor por alfarrábios e por todas as coisas do saber. Ainda gatinhava e já a sua alegria era estar a um canto, sobre uma esteira, embrulhado num cobertor, folheando in-fólios com o craniozinho calvo de sábio curvado sobre as letras garrafais da boa doutrina; e depois de crescidinho tinha tal propósito que permanecia horas imóvel numa cadeira, de perninhas bambas, esfuracando o nariz: nunca apetecera um tambor ou uma arma: mas cosiam-lhe cadernos de papel, onde o precoce letrado, entre o pasmo da mamã e da titi, passava dias a traçar algarismos, com a linguazinha de fora. Assim na família tinha a sua carreira destinada: era rico, havia de ser primeiro bacharel, e depois desembargador. Quando vinha a Santa Olávia, a tia Anica instalava-o logo à mesa, ao pé do candeeiro, a admirar as pinturas de um enorme e rico volume, Os Costumes de Todos os Povos do Universo. Já lá estava nessa noite, vestido como sempre de escocês, com o plaid de flamejante xadrez vermelho e negro posto a tiracolo e preso ao ombro por uma dragona; para que conservasse o ar nobre de um Stuart, de um valoroso cavaleiro de Walter Scott, nunca lhe tiravam o bonnet onde se arqueava com heroísmo uma rutilante pena de galo; e nada havia mais melancólico que a sua facezinha trombuda, a que o excesso de lombrigas dava uma moleza e uma amarelidão de manteiga, os seus olhinhos vagos e azulados, sem pestanas como se a ciência lhas tivesse já consumido, pasmando com sisudez para as camponesas da Sicília, e para os guerreiros ferozes do Montenegro apoiados a escopetas, em píncaros de serranias.

    Eça de Queirós - Os Maias, 1888. pp 66-67
  • Vocabulaire utile

    Estudos

    a letra →  a caligrafia,   Garrafal : Que tem o feitio de uma garrafa. Diz-se da letra grande e muito legível. 
    as letras → a literatura,  a filosofia  →  letrado 
    a doutrina : Conjunto de princípios de uma escola literária ou filosófico
    in-fólios  → o volume,  o alfarrábio, o livro
    o propósito  → a facilidade,  a habilidade,  o talento
    a precocidade  → precoce 
    o pasmo  → pasmar
    o algarismo  → o número,   calcular
    o bacharel  → o exame,  os estudos
    o desembargador : Nome que se dava aos juízes dos tribunais portugueses
    o candeeiro  →  a luz

    Vestimenta

    o plaid  → escocês  → o vestuário,   a roupa,  o traje
    a chama  → a pena , flamejante, flamejar
    o xadrez →  a tiracolo
    a dragona : Peça metálica ornada com franjas de fios de seda ou ouro usada como distintivo no ombro do uniforme militar
    o cavaleiro
    o boné  → arquear
    o heroísmo  → heroico
    o brilho  → rutilante,  rutilar

    Forma e saúde

    a melancolia  →  melancólico
    as trombas  → trombudo,  fazer trombas
    a lombriga →  ter lombrigas
    a moleza  → mole
    a amarelidão  → amarelo
    a manteiga
    a pestana  → pestanejar

    Leituras

    a ciência  → científico
    a sisudez →  sisudo
    guerreiros ferozes do Montenegro
    a escopeta  → a espingarda,  o mosquete
    píncaros  : Pináculo, cume, pico, o máximo de alguma coisa. Parte mais elevada de uma montanha.
    serranias : Cordilheira, aglomeração de serras ou montanhas

  • 1. A personagem do Eusebiozinho

    A personagem do Eusebiozinho, uma maravilha muito falada naqueles sítios

    1. Por que razão falavam muito do Eusebiozinho ?

    2. Que tipo de ocupação tinha o menino ?

    3. Onde é que passava o tempo ?
        Como ?
        É normal ?

    4. Que fazem as crianças dessa idade ? 

    - Pistes pour les réponses

    A personagem do Eusebiozinho : uma criança fora do comum

    1. Por que razão falavam muito do Eusebiozinho ?
    → Particularidade : ocupação idade

    2. Que tipo de ocupação tinha o menino ?
    → coisas do saber / ler, traçar

    3. Onde é que passava o tempo ? →  No seu canto
        Como ? →  só , sozinho
        É normal ?→ anormal / horas

    4. Que fazem geralmente as crianças dessa idade ?
    → brincar / apeteceu tambor  

    2. A família da criança

    A família da criança
    • 1. Quem dá os brinquedos, os meios de se ocupar ?
          Portanto quem escolhe o tipo de passatempo ?
          Portanto quem decide, quem faz dele um fenómeno ?

      2. Porque é que ele é precoce?

      3. Que efeito tem essa precocidade sobre a família?


      4. Passar horas imóvel para uma criança é bom ?

    - Pistes pour les réponses

    A família da criança : uma mãe viúva, uma família sem homem

    1. Quem dá os brinquedos, os meios de se ocupar ?
        Portanto quem decide ?
        Quem faz dele um fenómeno e porquê ?
    → família / titi, mãe (não há pai). Não é a criança.

    2. Porque é que ele é precoce?
    → cedo demais : cada coisa em seu tem. Desenvolver o intelecto.

    3. Que efeito tem essa precocidade sobre a família?
    → pasmo, encanto / “Maravilha notável “. Orgulho.

    4. Passar horas imóvel para uma criança é bom ?
    → Péssimo para a saúde / falta o desenvolvimento físico
     

    3. O tom do narrador

    O tom do narrador

    1. Qual é o tom do primeiro parágrafo ?
    2. O autor descreve o que ele vê ? A través de quê ?
    3. Qual é o tom a seguir ?
    4. De um ponto de vista visual, que efeito produz a descrição ?
    5. Trata-se de um retrato da total realidade ?
    6. Com que finalidade faziam isso tudo ?
    7. Primeira conclusão : que fazem da criança ?

    - Pistes pour les réponses

    O tom do narrador : sem tolerância, uma severa crítica

    1. Qual é o tom do primeiro parágrafo ?
    → Enfático

    2. O autor descreve o que ele vê ? A través de quê ?
    → criança vista pela mãe e a tia

    3. Qual é o tom a seguir ?
    → já é mais mau : espécie de raiva

    4. De um ponto de vista visual, que efeito produz a descrição ?
    → cómico, irónico

    5. Trata-se de um retrato da total realidade ?
    → troça, exagero, ridículo

    6. Com que finalidade faziam isso tudo ?
    → carreira, posteridade / prestígio

    7. Primeira conclusão : o que fazem da criança ?
    → moldam-na ,  futuro , para si... 
     

  • Emprego dos diminutivos e laudativos no texto Eusebiozinho

    Analise o emprego dos diminutivos e a utilização de palavras laudativas (= que celebra, glorifica, elogia) no trecho seguinte. De que maneira o uso do diminutivo e do laudativo contribuem para a expressão da opinião do narrador ?

    Formation du diminutif :  

    Eusebiozinho

    Quase desde o berço este notável menino revelara um edificante amor por alfarrábios e por todas as coisas do saber. Ainda gatinhava e já a sua alegria era estar a um canto, sobre uma esteira, embrulhado num cobertor, folheando in-fólios com o craniozinho calvo de sábio curvado sobre as letras garrafais da boa doutrina; e depois de crescidinho tinha tal propósito que permanecia horas imóvel numa cadeira, de perninhas bambas, esfuracando o nariz: nunca apetecera um tambor ou uma arma: mas cosiam-lhe cadernos de papel, onde o precoce letrado, entre o pasmo da mamã e da titi, passava dias a traçar algarismos, com a linguazinha de fora. Assim na família tinha a sua carreira destinada: era rico, havia de ser primeiro bacharel, e depois desembargador. Quando vinha a Santa Olávia, a tia Anica instalava-o logo à mesa, ao pé do candeeiro, a admirar as pinturas de um enorme e rico volume, Os Costumes de Todos os Povos do Universo. Já lá estava nessa noite, vestido como sempre de escocês, com o plaid de flamejante xadrez vermelho e negro posto a tiracolo e preso ao ombro por uma dragona; para que conservasse o ar nobre de um Stuart, de um valoroso cavaleiro de Walter Scott, nunca lhe tiravam o bonnet onde se arqueava com heroísmo uma rutilante pena de galo; e nada havia mais melancólico que a sua facezinha trombuda, a que o excesso de lombrigas dava uma moleza e uma amarelidão de manteiga, os seus olhinhos vagos e azulados, sem pestanas como se a ciência lhas tivesse já consumido, pasmando com sisudez para as camponesas da Sicília, e para os guerreiros ferozes do Montenegro apoiados a escopetas, em píncaros de serranias.

    Escolha a(s) boa(s) resposta(s).

    Eça emprega o diminutivo para sugerir :

    - pequenez
    - carinho
    - ternura
    - ironia
    - depreciação

  • A personagem do Eusebiozinho

    Personagem de Os Maias de Eça de Queirós, Eusebiozinho (ou Silveirinha) é o primogénito de uma das Silveiras, "senhoras ricas da Quinta da Lagoaça" na região do Douro.
    Filho da viúva Dona Eugénia, e irmão da Teresinha, aparece na obra como representante da educação tradicional e retrógrada portuguesa. Eusebiozinho era, em criança, um "menino molengão e tristonho", de "perninhas flácidas", com "as mãozinhas pendentes e os olhos mortiços".
    Amigo de infância de Carlos, com quem brincava em Santa Olávia, levava, continuamente, pancada daquele. Habituado a memorizar e com "um edificante amor por alfarrábios e por todas as coisas do saber", cresceu sem motivações, casou-se, mas enviuvou cedo.
    Mais tarde, para se distrair, procurava bordéis ou aventureiras de ocasião, parecendo "mais fúnebre, mais tísico".
    O diminutivo do nome é irónico e contrasta com a personagem Carlos que, desde criança, se revela saudável e cheio devida.
    Com Eusebiozinho - uma maravilha muito falada naqueles sítios, Eça de Queirós critica e ridiculariza a educação tradicional portuguesa que não prepara para avida. Mesmo em adulto, esta personagem é um falhado medíocre, de triste figura e com ar tísico.
      Clique para escutar o texto realçado ! Personagem de Os Maias de Eça de Queirós, Eusebiozinho (ou Silveirinha) é o primogénito de uma das Silveiras, senhoras ricas da Quinta da Lagoaça na região do Douro. Filho da viúva Dona Eugénia, e irmão da Teresinha, aparece na obra como representante da educação tradicional e retrógrada portuguesa. Eusebiozinho era, em criança, um menino molengão e tristonho, de perninhas flácidas, com as mãozinhas pendentes e os olhos mortiços. Amigo de infância de Carlos, com quem brincava em Santa Olávia, levava, continuamente, pancada daquele. Habituado a memorizar e com um edificante amor por alfarrábios e por todas as coisas do saber, cresceu sem motivações, casou-se, mas enviuvou cedo. Mais tarde, para se distrair, procurava bordéis ou aventureiras de ocasião, parecendo mais fúnebre, mais tísico. O diminutivo do nome é irónico e contrasta com a personagem Carlos que, desde criança, se revela saudável e cheio devida. Com Eusebiozinho - uma maravilha muito falada naqueles sítios, Eça de Queirós critica e ridiculariza a educação tradicional portuguesa que não prepara para avida. Mesmo em adulto, esta personagem é um falhado medíocre, de triste figura e com ar tísico.

    Fonte : Infopédia

  • Preencha o texto com os diminutivos correspondentes. Pode consultar livremente a ficha gramatical.

    Formation du diminutif :  

    Eusebiozinho

    Quase desde o berço este notável menino revelara um edificante amor por alfarrábios e por todas as coisas do saber. Ainda gatinhava e já a sua alegria era estar a um canto, sobre uma esteira, embrulhado num cobertor, folheando in-fólios com o (crânio) ................................. calvo de sábio curvado sobre as letras garrafais da boa doutrina; e depois de (crescido) ................................. tinha tal propósito que permanecia horas imóvel numa cadeira, de (pernas)  ................................. bambas, esfuracando o nariz: nunca apetecera um tambor ou uma arma: mas cosiam-lhe cadernos de papel, onde o precoce letrado, entre o pasmo da (mãe) ................................. e da (tia) ................................. , passava dias a traçar algarismos, com a (lingua) ................................. de fora. Assim na família tinha a sua carreira destinada: era rico, havia de ser primeiro bacharel, e depois desembargador. Quando vinha a Santa Olávia, a tia Anica instalava-o logo à mesa, ao pé do candeeiro, a admirar as pinturas de um enorme e rico volume, Os Costumes de Todos os Povos do Universo. Já lá estava nessa noite, vestido como sempre de escocês, com o plaid de flamejante xadrez vermelho e negro posto a tiracolo e preso ao ombro por uma dragona; para que conservasse o ar nobre de um Stuart, de um valoroso cavaleiro de Walter Scott, nunca lhe tiravam o bonnet onde se arqueava com heroísmo uma rutilante pena de galo; e nada havia mais melancólico que a sua (face) ................................. trombuda, a que o excesso de lombrigas dava uma moleza e uma amarelidão de manteiga, os seus (olhos)  ................................. vagos e azulados, sem pestanas como se a ciência lhas tivesse já consumido, pasmando com sisudez para as camponesas da Sicília, e para os guerreiros ferozes do Montenegro apoiados a escopetas, em píncaros de serranias.

    Levante os adjectivos, termos e expressões que possuem uma função caricatural ou satírica.

     

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    Eça de Queirós

    José Maria de Eça de Queirós nasceu em 25 de novembro de 1845, numa casa da Praça do Almada na Póvoa de Varzim, no centro da cidade. Foi batizado na Igreja Matriz de Vila do Conde.
    Filho de José Maria Teixeira de Queirós, nascido no Rio de Janeiro em 1820, e de Carolina Augusta Pereira d'Eça, nascida em Monção em 1826. O pai de Eça de Queirós, magistrado e par do reino, convivia regularmente com Camilo Castelo Branco, quando este vinha à Póvoa para se divertir no Largo do Café Chinês.

    Fonte : Wikipédia

     
     
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    • Voir la fiche Auteurs
  • Niveau B1 - Lire - 71

    Lire : Je peux comprendre des textes rédigés essentiellement dans une langue courante ou relative à mon travail. Je peux comprendre la description d’événements, l’expression de sentiments et de souhaits dans des lettres personnelles. (B1)
    [71] Je peux reconnaître les points importants de l’argumentation d’un texte mais pas forcément le détail.

    Niveau B2 - Lire - 100

    Lire : Je peux lire des textes dans lesquels les auteurs adoptent une attitude particulière ou un certain point de vue. Je peux comprendre un texte littéraire en prose. (B2)
    [100] Je peux reconnaître les conclusions principales de textes argumentatifs écrits clairement.

    Niveau B2 - Lire - 101

    Lire : Je peux lire des textes dans lesquels les auteurs adoptent une attitude particulière ou un certain point de vue. Je peux comprendre un texte littéraire en prose. (B2)
    [101] Je peux reconnaître les points importants de l’argumentation d’un texte mais pas forcément le détail.

    Notion abordée : Lieux et formes du pouvoir

Tags: Niveau B1 Littérature Roman Cinéma Société Niveau B2 Notion : Lieux et formes de pouvoir

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