Cena carioca

Écrit par Angelina Caussé. Publié dans Séquences

Um texto de Carlos Drummond de Andrade

Um texto de Carlos Drummond de Andrade e a sua adaptação filmada  : O dinheiro na sociedade brasileira...?  

  • Vocabulaire utile

    Nomes                                                  

    o lotação –  o transporte público
    a "madame" – o motorista
    pagar – viajar – transportar
    o troco – trocar – ter troco / trocado
    a cautela – cautelosa  – meticuloso
    o prejuízo – prejudicar
    o engano – o erro

    Vocabulário do dinheiro

    a nota
    a cédula
    a abóbora – a abobrinha
    o dinheiro
    o cabral
    o bolo
    o troco
    a moeda
    o preço
    ficar a dever

    Atitudes

    o respeito
    a paciência
    a elegância
    a confiança
    a vergonha
    a tolerância

  • A abobrinha - Cena carioca
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  • Cena carioca

    Quando a senhora foi descer do lotação, o motorista coçou a cabeça:
    - Mil cruzeiros? Como é que a senhora quer que eu troque mil cruzeiros?
    - Desculpe, me esqueci completamente de trazer trocado.
    - Não posso não, a madame não leu o aviso - olha ele ali - que o troco máximo é de 200 cruzeiros?
    - Eu sei, mas que é que hei de fazer agora? O senhor nunca esqueceu nada na vida?
    - Quem sabe se procurando de novo na bolsa...
    - Já procurei
    - Procura outra vez.

    Ela vasculhava, remexia, nada. Nenhum cavalheiro (como se dizia no tempo de meu pai) se moveu para salvar a situação, oferecendo troco ou se prontificando a pagar a passagem. Àquela hora, não havia cavalheiros, pelo menos no lotação.

    - Então o senhor me dá licença de saltar e ficar devendo.
    - Péra aí. Vou ver se posso trocar.

    Podia. Tirou do bolso de trás um bolo respeitável e foi botando as cédulas sobre o joelho, meticulosamente.

    - Tá aqui o seu troco. De outra vez a madame já sabe, heim?
    Ela desceu, o carro já havia começado a chispar, como é destino dos lotações, quando de repente o motorista freou e botou as mãos a cabeça:
    - A Abobrinha! Ela ficou com a abobrinha!
    Voltando-se para os passageiros:
    - Os senhores acreditam que em vez de guardar a nota de mil, eu de burro, devolvi com o troco?
    Botou a cabeça fora do carro, à procura da senhora, que atravessava a rua, lá atrás:
    - Dona! Ô dona! A nota de mil cruzeiros!
    Ela não escutava. Ele fazia sinais, pedia aos transeuntes que a chamassem, o trânsito entupigaitava-se, buzinas soavam:
    - Toca! Toca!
    Os passageiros não pareciam interessados no prejuízo, como antes não se condoeram do vexame da senhora.
    - Como é que eu posso tocar se perdi mil cruzeiros, gente? Quem vai me pagar esses mil cruzeiros?
    Encostou o veículo, e, num gesto solene:
    - Vou buscar meu cabral. A partir deste momento, confio este carro, com todos seus pertences, à distinção dos senhores passageiros.
    - Deixa que eu vou - disse um deles, um garoto. E precipitou-se para fora, antes do motorista.
    - Será que esse tiquinho de gente consegue?
    Via-se o garoto correndo para alcançar a senhora, tocando-a pelo braço, os dois confabulando. Ela abria de novo a bolsa, tirava objetos, o pequeno ajudava. Enquanto isso, o motorista queixava-se.
    - Esta linha é de morte. Primeiro querem que a gente troque um conto de réis, como se o papai fosse o Tesouro Nacional ou Banco do Brasil. Depois carregam o troco e o dinheiro trocado, que nem juros. Essa não! E esse garoto que não acaba com a conversa mole, sei lá até se ele volta.
    Os passageiros impacientavam-se com a demora da expedição. O guarda veio estranhar o estacionamento e recebeu a explicação de força-maior, quem é que me paga meus mil cruzeiros? O Serviço de Trânsito?
    O garoto voltou sem a nota. A senhora tinha apenas 982 cruzeiros, ele vira e jurava por ela.
    - Toca! Toca!
    - Tão vendo? Um prejuízo desses antes do almoço é de tirar a fome e a vontade de comer.
    Disse em tom frio, sem revolta, como simples remate.
    E tocou. Perto do colégio, o garoto desceu, repetindo, encabulado:
    - Pode acreditar, ela não tinha mesmo o dinheiro não.
    O motorista respondeu-lhe baixinho:
    - Eu sei. Já vi que está ali debaixo da caixa de fósforos.
    Mas se eu disser isso, esse povo me mata.

    Carlos Drummond de Andrade - Crônicas , 1972.

  • Exercice d'expression orale

    Racontez la scène,librement, en portugais, sans l'aide du texte.

  • Exercice de mémorisation lexicale

    Complete o texto.

    Quando a senhora foi descer do lotação, o motorista (coçar) ............................... a cabeça:
    - (Mil) ............................... cruzeiros? Como é que a senhora (querer) ............................... que eu (trocar) ............................... mil cruzeiros?
    - (Desculpar ) ..............................., me esqueci completamente de trazer trocado.
    - Não posso não, a madame não (ler) ............................... o aviso - (olhar) ............................... ele ali - que o troco máximo é de (200) ............................... cruzeiros?
    - Eu (saber) ............................... , mas que é que (haver) ............................... de fazer agora? O senhor nunca (esquecer) ............................... nada na vida?
    - Quem sabe se procurando de novo na bolsa...
    - Já (procurar) ............................... .
    - (procurar) ............................... outra vez.


    Particípio passado ou gerúndio :

    Ela vasculhava, remexia, nada. Nenhum cavalheiro (como se dizia no tempo de meu pai) se moveu para salvar a situação, (oferecer) ............................... troco ou se (prontificar) ............................... a pagar a passagem. Àquela hora, não havia cavalheiros, pelo menos no lotação.

    - Então o senhor me dá licença de saltar e ficar (dever) ............................... .
    - Péra aí. Vou ver se posso trocar.

    Podia. Tirou do bolso de trás um bolo respeitável e foi (botar) ............................... as cédulas sobre o joelho, meticulosamente.

    - Tá aqui o seu troco. De outra vez a madame já sabe, heim?
    Ela desceu, o carro já havia (começar) ............................... a chispar, como é destino dos lotações, quando de repente o motorista freou e botou as mãos a cabeça:
    - A Abobrinha! Ela ficou com a abobrinha!
    (Voltar) ............................... -se para os passageiros:
    - Os senhores acreditam que em vez de guardar a nota de mil, eu de burro, devolvi com o troco? (...)

    Carlos Drummond de Andrade - Crônicas , 1972.

  • 1. Questions sur le texte

    Perguntas sobre o texto

    1. Quais são as diferentes personagens evocadas no texto ?

    2. O que se sabe ou adivinha sobre o casal ?

    3. Que diferenças existem entre as duas mulheres ? Justifique citando elementos do texto.

    4. A mulher é comparada com um "bicho". Por que razão ?

    5. O acto da mulher da favela é altamente simbólico. Explique porquê.

    6. Como se pode explicar a decisão do homem ? Ao seu ver, havia outras maneiras de evitar a confrontação ?

    7. O texto revela dois mundos extremamente contrastados. O que pode provocar a proximidade de dois "mundos" tão diferentes ?

    8. Ao seu ver, a cena da piscina é representativa da sociedade brasileira ?

    - Pistes pour les réponses

    Perguntas sobre o texto

    1. Quais são as diferentes personagens evocadas no texto ?
    → casal, mulheres, crianças

    2. O que se sabe ou adivinha sobre o casal ?
    → rico, descanso de fim de semana, luxo, prazer, paz   

    3. Que diferenças existem entre as duas mulheres ? Justifique citando elementos do texto.
    → maiô / mulambos , tranquilidade / intranquilidade, paz da vida / falta de tudo, desafio / medo   

    4. A mulher é comparada com um "bicho". Por que razão ?
    → maneira de penetrar na propriedade privada, maneira de observar / fixar / não tirar os olhos de...   

    5. O acto da mulher da favela é altamente simbólico. Explique porquê.
    → colher água "alheia" = roubar o que não lhe pertence = revolta, sentimento de injustiça = vontade de acabar com a desigualdade ligada à "posse" de um bem necessário à vida : a água   

    6. Como se pode explicar a decisão do homem ? Ao seu ver, havia outras maneiras de evitar a confrontação ?
    → o acto da favelada criou um "precedente" : quem roubou água poderá tomar posse de outras coisas necessárias... →  assaltos possíveis... Falta de segurança definitiva. Não há outra hipótese senão ir viver mais longe...   

    7. O texto revela dois mundos extremamente contrastados. O que pode provocar a proximidade de dois "mundos" tão diferentes ?
    → sentimento de profunda desigualdade, injustiça, tentação, cobiça, inveja, cólera, revolta...  

    8. Ao seu ver, a cena da piscina é representativa da sociedade brasileira ?
    → É : uma sociedade onde a classe média não é tão representada como as duas classes opostas →  a muito pobre e a muito rica 

    2. Tradução

    Traduza para português as frases seguintes, inspirando-se dos versos do poema :

    Le couple a décidé de vendre la maison car la proximité de la favela rendait insupportable la cohabitation.

    - Pistes pour la traduction

    Pistas para a tradução :

    Le couple a décidé de vendre la maison car la proximité de la favela rendait insupportable la cohabitation.
    O casal decidiu vender a casa porque a proximidade da favela tornava insuportável a coabitação...
     

  • Pour aller plus loin...

    • Lisez ou étudiez le poème Litoral  de Sidonio Muralha.
    • Allez découvrir la séquence sur la Révolution des œillets .
    • Rendez-vous sur le site du Museo Reina Sofia  pour découvrir d'autres œuvres de Dali .
    • Moins gai. Pour connaître un peu mieux les tragédies vécues au cours des Guerras de Ultramar, visitez l'une des pages de ce  site .   Analysez les lieux, époques et causes de ces tragédies.

     

  • Niveau B1 - Écouter - 60


    Écouter : je peux comprendre des points essentiels quand un langage clair et standard est utilisé et s’il s’agit de sujets familiers concernant la vie quotidienne. Je peux comprendre l’essentiel de nombreuses chansons, émissions de radio ou de télévision sur l’actualité ou sur des sujets qui m’intéressent, si l’on parle d’une façon relativement claire et distincte. (B1)
    [60] Je peux comprendre les idées principales d’un propos clair et standard sur des sujets familiers et habituels.

    Niveau B1 - S’exprimer oralement en continu - 78


    S’exprimer oralement en continu : Je peux m’exprimer de manière simple afin de raconter des expériences et des événements. Je peux brièvement donner les raisons et les explications de mes opinions. Je peux raconter une histoire ou l’intrigue d’un film et exprimer mes réactions. (B1)
    [78] Je peux raconter une histoire ou l’intrigue d’un livre ou d’un film et exprimer mes réactions.

    Niveau B2 - Lire - 101

    Lire : Je peux lire des articles en langue et des rapports sur des questions contemporaines dans lesquels les auteurs adoptent une attitude particulière ou un certain point de vue. Je peux comprendre un texte littéraire contemporain en prose. (B2)
    [101] Je peux reconnaître les points importants de l’argumentation d’un texte mais pas forcément le détail.

    Notion abordée : L’art de vivre ensemble

    2. Sentiment d'appartenance: singularités et solidarités

    .

    Source : Eduscol

T-viacao.jpg Cena carioca Quando a senhora foi descer do lotação, o motorista coçou a cabeça: - Mil cruzeiros? Como é que a senhora quer que eu troque mil cruzeiros? - Desculpe, me esqueci completamente de trazer trocado. - Não posso não, a madame não leu o aviso - olha ele ali - que o troco máximo é de 200 cruzeiros? - Eu sei, mas que é que hei de fazer agora? O senhor nunca esqueceu nada na vida? - Quem sabe se procurando de novo na bolsa... - Já procurei - Procura outra vez. Ela vasculhava, remexia, nada. Nenhum cavalheiro (como se dizia no tempo de meu pai) se moveu para salvar a situação, oferecendo troco ou se prontificando a pagar a passagem. Àquela hora, não havia cavalheiros, pelo menos no lotação. - Então o senhor me dá licença de saltar e ficar devendo. - Péra aí. Vou ver se posso trocar. Podia. Tirou do bolso de trás um bolo respeitável e foi botando as cédulas sobre o joelho, meticulosamente. - Tá aqui o seu troco. De outra vez a madame já sabe, heim? Ela desceu, o carro já havia começado a chispar, como é destino dos lotações, quando de repente o motorista freou e botou as mãos a cabeça: - A Abobrinha! Ela ficou com a abobrinha! Voltando-se para os passageiros: - Os senhores acreditam que em vez de guardar a nota de mil, eu de burro, devolvi com o troco? Botou a cabeça fora do carro, à procura da senhora, que atravessava a rua, lá atrás: - Dona! Ô dona! A nota de mil cruzeiros! Ela não escutava. Ele fazia sinais, pedia aos transeuntes que a chamassem, o trânsito entupigaitava-se, buzinas soavam: - Toca! Toca! Os passageiros não pareciam interessados no prejuízo, como antes não se condoeram do vexame da senhora. - Como é que eu posso tocar se perdi mil cruzeiros, gente? Quem vai me pagar esses mil cruzeiros? Encostou o veículo, e, num gesto solene: - Vou buscar meu cabral. A partir deste momento, confio este carro, com todos seus pertences, à distinção dos senhores passageiros. - Deixa que eu vou - disse um deles, um garoto. E precipitou-se para fora, antes do motorista. - Será que esse tiquinho de gente consegue? Via-se o garoto correndo para alcançar a senhora, tocando-a pelo braço, os dois confabulando. Ela abria de novo a bolsa, tirava objetos, o pequeno ajudava. Enquanto isso, o motorista queixava-se. - Esta linha é de morte. Primeiro querem que a gente troque um conto de réis, como se o papai fosse o Tesouro Nacional ou Banco do Brasil. Depois carregam o troco e o dinheiro trocado, que nem juros. Essa não! E esse garoto que não acaba com a conversa mole, sei lá até se ele volta. Os passageiros impacientavam-se com a demora da expedição. O guarda veio estranhar o estacionamento e recebeu a explicação de força-maior, quem é que me paga meus mil cruzeiros? O Serviço de Trânsito? O garoto voltou sem a nota. A senhora tinha apenas 982 cruzeiros, ele vira e jurava por ela. - Toca! Toca! - Tão vendo? Um prejuízo desses antes do almoço é de tirar a fome e a vontade de comer. Disse em tom frio, sem revolta, como simples remate. E tocou. Perto do colégio, o garoto desceu, repetindo, encabulado: - Pode acreditar, ela não tinha mesmo o dinheiro não. O motorista respondeu-lhe baixinho: - Eu sei. Já vi que está ali debaixo da caixa de fósforos. Mas se eu disser isso, esse povo me mata. Carlos Drummond de Andrade - Crônicas , 1972.

Tags: Littérature Roman Société Niveau B2 Notion : L’art de vivre ensemble

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